"A história é a filosofia inspirada nos exemplos."
Dionísio de Halicarnasso

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Frei Dimas (continuação)

Os frades ficaram revoltados, e eu às 5h30 fui para a casa de meus pais dar essa notícia. Mamãe, que estava tirando do forno o último pedaço de leitoa assada para a festa que se seguiria à ordenação, me respondeu: Deus sabe o que faz! Fiquei por ali, transmitindo a notícia aos irmãos e parentes, de que não seria ordenado naquele dia.

Os frades silenciaram, nada informando pelo auto-falante à população da cidade, fundamentados no fato de que se culpassem o Bispo, o povo se voltaria contra ele. 

Na hora prevista, 10 horas da manhã, a população com roupas festivas lotou a Igreja Matriz N. S. dos Anjos para a cerimônia. Todo mundo assistiu a missa do bispo sem entender nada, já que não houve a ordenação prevista. Uns comentavam que o candidato a padre desistira; outros diziam que ele não teria sido aceito pelo Bispo. Ao meio-dia os padres me levaram para o salão nobre do Ginásio Pio XII para o banquete festivo sob o argumento de que a festa não teria como ser cancelada.

Jovens da sociedade itambacuriense vestidas como garçonetes serviam as mesas; a banda de música tocava marchinhas; e o Dr. José Transfiguração Figueiredo teve de improvisar, no discurso que preparara previamente, dizendo que naquele dia eu estava sendo "eleito", e na semana seguinte seria “empossado”. 

Frei Sixto, com crise de choro, foi levado para passear em Teófilo Otoni; eu, aplaudido, fui para a casa de meus pais participar da recepção do povo em festa, comendo e bebendo. Assim terminou o dia da ordenação que não aconteceu!

No dia seguinte, no avião Douglas, de 36 passageiros, da Lóide Aéreo Nacional, viajei com Frei Sixto para o Rio, para ser ordenado padre. Lá chegando, nova dificuldade!

No sábado dia 18, às 10 horas, no altar-mor, já estava marcada a celebração de uma missa, e a pessoa  que havia solicitado esta missa não  foi encontrada para remarcá-la para outro dia, e assim a ordenação não poderia acontecer  em nossa Igreja.

As irmãs do Hospital São Vicente, na Rua do Matoso, emprestaram a capela, hoje Santuário da Medalha Milagrosa, e assim às 10 horas do dia 18 de março de 1961 fui ordenado padre.

Estavam presentes os frades Frei Sixto de Cássaro, Frei Jamaria de Sortino, Frei Gaspar de Módica, Frei Geraldo de Sortino, Frei José de Santa Teresa, uma prima com a filha, que moravam no Rio; e também a madrinha Cordélia que substituiu mamãe na cerimônia de descobrir as mãos, e muitos paroquianos amigos. Em seguida houve um almoço só para os mais próximos, no convento.

Com alguns pertences em uma pasta de mão, no dia seguinte pela manhã parti com Frei Sixto no avião da Nacional de volta a Itambacuri, desta vez para a primeira missa.

Para a época, a recepção foi calorosa! Ao descer do avião, vislumbrei através da poeira provocada pelo pouso, muita gente e muitos carros. Fiquei emocionado!

Na carreata até a Capela do Sagrado Coração de Jesus, contavam-se uns 30 jipes que acompanhavam o único automóvel pertencente a Dr. Firmato, no qual eu me encontrava. 


Da capela caminhamos até a matriz N. S. dos Anjos, onde celebrei minha primeira missa ás 10 horas da manhã de domingo, 19 de Março. Voltando ao Rio, não só encarei aulas e trabalhos manuais, mas também  missas, batizados e casamentos.

O ano de 1961 passou rápido; 1962 chegou trazendo novidades: recebi autorização para atender confissões, fui colocado como Capelão do Colégio Maria Raythe, e ingressei no curso de Pastoral no Convento Santo Antônio no Largo da Carioca. Não me lembro qual o mês e nem por quanto tempo, sei que foi uma experiência maravilhosa estar junto de Frei Felix, irmão leigo de quase 90 anos e cego dos dois olhos. Dormia no mesmo quarto ao lado dele cuidando da alimentação, do banho, dos medicamentos e da limpeza do quarto. 

Acordado, de dia ou de noite, frei Felix estava sempre rezando. Era um religioso manso, humilde, muito calmo e que parecia aceitar muito bem a cruz da cegueira; aprendi muito com ele! Terminado o curso de Pastoral, fui transferido para Itambacuri como Vigário Cooperador, juntando-me a Frei Sixto no atendimento às comunidades do interior.

Chamado às pressas ao Rio, por Frei Agatângelo, frei Sixto deixou Itambacuri para ser Pároco da Paróquia N. S. das Graças, no Bairro Porto Velho, em São Gonçalo, RJ. Fiquei sozinho como vigário, auxiliado por Frei Antonio (hoje, bispo).

No início de 1964 levei Frei Boaventura ao Rio para tratar de um câncer na orelha. Ele ficou no Rio e eu me hospedei com Frei Sixto em São Gonçalo, e foi por isto que não me encontrava em Itambacuri quando Frei Agostinho foi preso por ocasião do início do golpe de estado, em março de 1964.

Permanecendo em Itambacuri, assumi como guardião e pároco de 1966 a 1968 o Convento e a paróquia N. S. dos Anjos. No início de 1969 me transferiram para Conceição do Mato Dentro, MG, substituindo Frei Agatângelo de Sortino nas funções de guardião e pároco.

Apesar de ele ter anunciado a chegada de Frei Celestino, uma lei eclesial nos levara a readotar o nome de batismo e, portanto, lá cheguei como Frei Dimas. 1972 me trouxe uma surpresa agradável: fui escolhido para representar a Custódia na eleição do Provincial de Siracusa, Itália, juntamente com o Custódio Frei Sixto. Fomos então para a Europa, tendo conhecido a Itália e outros países, durante três meses.

Em 1974 fui escolhido para fazer um curso de franciscanismo no CEFEPAL durante nove meses, em Petrópolis, na Rua Monsenhor Bacelar. Voltando para Conceição do Mato Dentro no final de novembro, fui transferido no início de 1975 para Petrópolis como Pároco da Paróquia São Sebastião do Indaiá e guardião da nossa residência na Capela N. S. Aparecida.

Repetindo o triênio em Petrópolis, assumi também o encargo de diretor dos estudantes que lá se preparavam para o sacerdócio, de 1979 a 1981. No carnaval de 1982, depois de duas cirurgias por causa de uma apendicite não diagnosticada, passei 29 dias no CTI do hospital da Providência, das irmãs Vicentinas.

Da esquerda para a direita: frei Henrique, padre Lauro, frei Jair, frei Agostinho, frei Dimas e frei Roberto.
Eleito Provincial, fui para o Rio de Janeiro, onde fiquei de 1984 a 1986. Alguns meses depois voltei para Conceição do Mato Dentro, onde em 1993 recebi a dolorosa incumbência de preparar a Paróquia para ser devolvida à Diocese de Guanhães. Depois de tudo resolvido, dia cinco de Fevereiro de 1995 deixei Conceição do Mato Dentro com o coração partido, em direção ao Rio de Janeiro.

No Rio demorei pouco tempo, e ainda em 1995 fui para São Gonçalo, RJ, Paróquia N. S. das Graças. De 1997 a 1999 novamente fiquei em Petrópolis como diretor dos nossos estudantes de filosofia e teologia. Do final de 1999 até  2002 permaneci em Niteról como Pároco da Paróquia de Santo Cristo dos Milagres.

No ano 2000, pedi e me foi concedido fazer a experiência de Assis dirigida pela Família Franciscana, ex-CEFEPAL, durante um mês, em Assis e nos lugares onde Francisco esteve; no final do curso, fui à terra Santa.

Quando foi eleito Provincial em 2003, Frei João Carlos me transferiu para Itambacuri como provedor do Santuário N. S. dos Anjos e administrador da fazenda. Lá permaneci em 2004 e 2005. De 2006 a 2007  trabalhei  em Teresópolis, RJ.

Em 2008 fui transferido para o Rio, mas logo em seguida a Ordem me mandou para Niterói, onde me encontro até hoje.

Celebrar é reviver, e foi assim que vivi esses últimos meses voltando ao passado e revivendo as etapas desses 50 anos, revigorando o meu SIM.

Como começou minha vocação? Não sei quando foi, como foi, e porque foi. Sei que, no avançar da caminhada, o horizonte longínquo foi se aproximando, e a resposta “quero” da pergunta você quer ir para o seminário?, encontrou terreno fértil onde pôde germinar, florescer e produzir bons frutos até os dias de hoje. 

“Me chamastes para caminhar na vida Convosco”, não porque eu mereço, mas porque Vós quereis.” E porque Sua graça nunca falta para aquele que escuta seu chamado, “Decidi para sempre segui-lo, e não voltar atrás”.

Segui-Lo é caminhar no seu passo e no seu compasso, e não ficar na montanha olhando para o alto e contemplando-o  transfigurado, junto a Moisés e Elias, mas é descer para a planície e socorrê-lo na pessoa do irmão necessitado ou aliviá-lo na “Criação que geme em dores de parto”.

Não posso esquecer que Jesus também sofreu pela fidelidade à vocação, para a qual o Pai O havia chamado. Isto tem me ajudado muito, no meu levantar quando cair; humilhar-me quando o orgulho me domina; pedir perdão quando ofendo.

A responsabilidade de Jesus em cumprir a missão de pregar a doutrina do amor num meio adverso até levou-o a ser morto como um malfeitor. Ele me ensina que a felicidade verdadeira está em carregar a cruz com constância, humildade e amor. Daí o convite para deixar a montanha e descer para a planície da vida diária.

Aqui não só a cruz das minhas necessidades e fragilidades é pesada e me angustia como também os sofrimentos dos irmãos sem voz e sem vez. Esta é a cruz mais pesada! Foi ela que provocou as três quedas de Jesus no caminho do Calvário e o levou à morte. 

Foi ela que o levou a gritar do alto da cruz: Pai, se possível, afasta de mim este cálice! É ela que nos leva a fugir para a montanha, porque é penoso, estressante, e causa revolta conviver com ela na planície. 

É doloroso querer mudar o que não se consegue; salvar o que  aparentemente está perdido. Ser discípulo é trilhar os caminhos do Mestre, e é isto que busco há 50 anos. Obrigado Senhor porque és meu amigo, e nenhum caminho é longo demais, quando um amigo nos acompanha; por isso estou aqui.

Frei Dimas de Castro Neves.

7 comentários:

  1. Respostas
    1. Caro leitor não identificado,

      O frei Agostinho não foi esquecido por nós. A biografia dele está na fase de pesquisas - mas logo fará parte da Itypédia.

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  2. Tiago

    Desculpe por não ter me identificado.

    Eu tinha a certeza que não iam esquecer do Frei Agostinho, assim como de outros religiosos nascidos em Itambacuri, como Frei Serafim José Pereira, Frei Eduardo (Lúcio Valentim de Souza), Frei Eustáquio (irmão leigo já falecido e irmão de sangue de Frei Angélico, hoje padre secular com o nome de Pe. Geraldo Ferreira Dias) e Dom Jose Ubiratan Lopes, bispo de Itaguaí (RJ).

    Sobre os religiosos citados, teço alguns comentários.

    - Frei Agostinho é natural de Teófilo, conforme o livro "Missionários Capuchinhos nas antigas Catequeses Indígenas e nas sedes do Rio de Janeiro, Espírito Santo e Leste de Minas", de Frei Serafim José Pereira.
    - Frei Serafim, penso que foi o 1º padre natural de Itambacuri a ser ordenado.
    - Frei Eduardo, hoje está laicizado.
    - Frei Estáquio era de Itambacuri e seu irmão Frei Angélico nasceu em Teófilo Otoni (conf. a mesma fonte já citada)
    - Frei Ubiratan, penso que foi o 1º e único bispo nascido em Itambacuri.

    Um abraço,

    Manoel Andrade

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  3. Não há problemas quanto a não-identificação, Manoel! Olha, agradeço muito pelo comentário. Mas o frei Agostinho não nasceu em Teófilo não... Na verdade, naquele tempo havia uma divergência entre local de nascimento e local de registro, por questões práticas. No texto sobre ele você vai entender - não vou revelar a surpresa.

    Eu tenho o referido livro e recomendo-o. Mas ele não é muito preciso. É, claro, um importante trabalho. Tenho tios citados no livro e há erros em datas de nascimento e coisas do tipo.

    Manoel, sinta-se à vontade para comentar sobre outros textos do blog. Conte suas memórias, experiências... a história a gente vai construindo assim. Caso queira trocar umas idéias, use o e-mail de contato do blog (itypedia@gmail.com).

    Muito obrigado!

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  4. Frei Dimas, querido amigo. Acredito que você não saiba o quanto o admiro, desde nossa convivência na Fraternidade de Petrópolis. Muita coisa aconteceu de lá para cá. A vida seguiu seus rumos. Mas até hoje agradeço a Deus a graça de ter conhecido e convivido com você. Muito aprendi e até hoje procuro lembrar sua fé, sua humanidade, sua fraternidade e, principalmente, sua alegria e jovialidade diante de quaisquer situações ou dificuldades. Um beijo franciscano, carinhoso e saudoso. Roberto Belleza (o Frei Roberto da foto).

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  5. Frei Dimas, querido amigo. Acredito que você não saiba o quanto o admiro, desde nossa convivência na Fraternidade de Petrópolis. Muita coisa aconteceu de lá para cá. A vida seguiu seus rumos. Mas até hoje agradeço a Deus a graça de ter conhecido e convivido com você. Muito aprendi e até hoje procuro lembrar sua fé, sua humanidade, sua fraternidade e, principalmente, sua alegria e jovialidade diante de quaisquer situações ou dificuldades. Um beijo franciscano, carinhoso e saudoso. Roberto Belleza (o Frei Roberto da foto).

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  6. Que 'beleza' Roberto! Frei Dimas é aquela pessoa maravilhosa, assim como toda sua família, sempre alegre e sempre cantando... Ele está atualmente no convento do Rio de Janeiro. Grande abraço.
    P.s: não o conheci, mas sei que seu nome consta no livro do Frei Serafim.

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